A Seleção Brasileira está cada vez mais previsível sem laterais ofensivos — e a culpa, segundo o ex-jogador André Luiz, começa na base. Em depoimento no Fut&Papo, na Casa Ronaldo, o ex-lateral da Seleção diagnosticou o desaparecimento de jogadores capazes de marcar, apoiar e criar amplitude, um dos pilares que fizeram o Brasil brilhar nas décadas de 1990 e 2000. Resultado mais recente: Brasil 1-2 Noruega (05/07/2026).

Por que os laterais sumiram?

André Luiz lembrou que, em sua geração, havia pelo menos seis laterais esquerdos de alto nível disputando vaga na Seleção: ele próprio, Roberto Carlos, Serginho, Júnior, Zé Roberto e Athirson. — Na minha época, para vestir a camisa da Seleção era muito difícil — afirmou. Hoje, o Brasil perdeu essa capacidade de jogar pelos lados, o que tornou o time mais fácil de ser marcado. Faz muitos anos que você não vê isso. O ex-jogador citou a ausência de laterais como Marcelo e Cafu — ícones que definiram uma era — como um dos motivos para o empobrecimento do jogo brasileiro. Sem jogadores que ultrapassem a linha de fundo, cruzassem e abrissem espaços, os adversários fecham as linhas com facilidade.

— O Brasil sempre teve força jogando pela lateral, esquerda ou direita, até para dar espaço aos atacantes e meias. Hoje, os caras fecham a casinha e você não consegue fazer nada — disse.

Base brasileira: ‘balcão de negócios’ ou escola de futebol?

A crítica de André Luiz não se limitou aos laterais. Ele apontou a transformação das categorias de base em ‘balcão de negócios’, onde jovens são negociados antes mesmo de amadurecerem.

— Hoje, os jogadores são vendidos da base com 13, 14, 15 anos. Ninguém joga mais no profissional, ninguém consegue fazer história no clube — afirmou. Para ele, o Brasil se afastou de características que sempre marcaram seus grandes times: improviso, drible e alegria. O ex-lateral também criticou a tentativa de copiar o futebol europeu, que, segundo ele, tirou a identidade ofensiva do futebol brasileiro.

— Estão querendo fazer do futebol brasileiro o futebol europeu, tirando a criatividade — completou.

O que Telê Santana ensinaria aos laterais de hoje?

André Luiz lembrou que, no São Paulo de Telê Santana, os laterais eram incentivados a atacar juntos, com cobertura dos volantes.

— O Telê falava para mim e para o Cafu: os dois apoiam ao mesmo tempo, não tem problema nenhum. O Dinho e o Pintado que se cuidem de fazer a cobertura — contou. Para ele, esse modelo é fundamental para recuperar a amplitude e a imprevisibilidade do jogo brasileiro.

E agora, o que fazer?

O alerta de André Luiz chega em um momento em que a Seleção Brasileira busca reencontrar seu DNA ofensivo. Forma recente (últimos 5 jogos): 4V-0E-1D (DVVVV, mais recente primeiro). Próximo compromisso: vs Austrália (fora de casa, 25/09/2026).

O ex-jogador defende que a CBF e os clubes repensem a formação de laterais desde cedo, priorizando jogadores com capacidade técnica e mentalidade ofensiva — não apenas defensiva.

— Se o Brasil não produzir laterais com capacidade de marcar, apoiar e criar, vamos continuar previsíveis — alertou. A discussão sobre a base, segundo ele, não é apenas técnica, mas cultural: é preciso resgatar a alegria e a identidade que fizeram o futebol brasileiro ser único no mundo.